Este artigo é a Parte III de uma série de cinco sobre a autoria e credibilidade do Evangelho de Mateus. Nas partes anteriores, examinamos autoria apostólica e o original hebraico. Aqui, investigamos as citações do Antigo Testamento que parecem fora de contexto.
A objeção é antiga e soa razoável: Mateus cita o Antigo Testamento de forma que os textos originais não suportam. Isaías 7:14 fala de um sinal imediato para o rei Acaz, não de um nascimento virginal séculos depois. Jeremias 31:15 fala do exílio babilônico, não do massacre de Belém. Como pode Mateus citar esses textos como profecias cumpridas em Jesus?
A resposta não está em defender que Mateus errou ou que a crítica está certa. Está em entender que Mateus não estava praticando exegese moderna. Estava praticando Remez, um método hermenêutico específico do judaísmo do Segundo Templo, documentado extensamente no Talmud e nos Midrashim, e que seus leitores do primeiro século reconheceriam imediatamente.
Acusar Mateus de distorção é como julgar um texto medieval por não seguir as normas da ABNT. O critério é anacrônico.
O que é o método Remez
O judaísmo rabínico do Segundo Templo operava com quatro níveis de leitura da Escritura, conhecidos pelo acrônimo PaRDeS: Pshat (sentido literal), Remez (sentido alusivo ou tipológico), Derash (sentido homilético) e Sod (sentido místico).
O Remez opera em dois níveis simultaneamente. No primeiro nível, o texto tem um significado histórico imediato e literal, o Pshat. No segundo nível, o mesmo texto aponta para um cumprimento mais profundo e pleno, que o Pshat por si só não esgota. O intérprete não nega o primeiro nível. Ele afirma que o segundo existe e que o Pshat é sua sombra.
Isso não é invenção cristã. Os pesarim de Qumran fazem exatamente o mesmo: citam textos proféticos com sentido imediato reconhecido e aplicam um segundo nível de cumprimento à comunidade do Morto do Mar. O Midrash Rabbah usa a mesma estrutura de leitura em centenas de passagens. Quando Mateus cita Isaías e Jeremias desta forma, está operando dentro de uma metodologia que qualquer judeu letrado do primeiro século reconhecia como legítima.
Isaías 7:14: o sinal para Acaz e o nascimento de Jesus
O texto original, em seu contexto:
"Portanto, o próprio Senhor vos dará um sinal: eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel." Isaías 7:14
O contexto imediato é político e urgente. O rei Acaz enfrenta uma coalizão militar de Israel e Síria. Isaías anuncia um sinal concreto: antes que uma criança que está para nascer saiba distinguir o bem do mal, esses dois reinos estarão destruídos (Is 7:16). O cumprimento Pshat é imediato, histórico e específico.
A crítica para aqui e conclui: Mateus tirou o versículo fora do contexto.
Mas há um segundo dado que a crítica ignora. A palavra hebraica usada por Isaías é almah, que significa jovem em idade de casar, geralmente virgem dentro do contexto cultural do Antigo Israel. A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento produzida por judeus alexandrinos séculos antes de Jesus, traduziu almah por parthenos, que significa virgem. Isso indica que tradutores judeus, sem qualquer interesse cristão, já liam algo extraordinário nesse texto, extraordinário o suficiente para escolher o termo mais específico.
Mateus opera no nível Remez: o nascimento histórico no contexto de Acaz foi real e teve seu cumprimento Pshat. Mas o próprio texto usou uma palavra que apontava além dele, para um cumprimento mais pleno que a história de Acaz não esgotava. Jesus é esse cumprimento pleno, o Emanuel no sentido mais literal: Deus com nós, não apenas um sinal de proteção temporária para um rei ameaçado.
O argumento decisivo: se Mateus estivesse distorcendo, a Septuaginta, produzida por judeus, não teria escolhido parthenos. A leitura extraordinária do texto já estava na tradição judaica antes de qualquer cristão.
Jeremias 31:15: Raquel e as crianças de Belém
O segundo caso segue a mesma lógica, com uma camada adicional que a crítica raramente menciona.
"Assim diz o Senhor: Ouve-se uma voz em Ramá, lamentação e choro amargo: Raquel chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque eles já não existem." Jeremias 31:15
O contexto Pshat é o exílio babilônico. Raquel, mãe ancestral de Efraim e Manassés, chora pelos filhos do Norte levados ao exílio. A imagem é de luto coletivo e aparente abandono. A crítica objeta: o que isso tem a ver com o massacre de Belém?
A resposta começa no versículo seguinte, que Mateus pressupõe e a crítica costuma cortar:
"Assim diz o Senhor: Refreia a tua voz do pranto e os teus olhos das lágrimas, porque há recompensa pelo teu trabalho, diz o Senhor; eles voltarão da terra do inimigo. Há esperança para o teu futuro, diz o Senhor; os teus filhos voltarão aos seus próprios territórios." Jeremias 31:16-17
Jeremias 31 não é um texto de lamento puro. É um texto de lamento que termina em restauração. O capítulo inteiro culmina na promessa da Nova Aliança (Jr 31:31-34). Quando Mateus cita Jr 31:15, ele não está isolando o lamento, está evocando o capítulo inteiro, incluindo a promessa de que o luto será revertido.
O Remez de Mateus é preciso: assim como as mães do exílio choraram por filhos levados, as mães de Belém choram por filhos mortos. E assim como o lamento do exílio não foi a última palavra, o lamento de Belém também não é a última palavra. O próprio Jesus, que Herodes tentou eliminar, escapa e retorna: a reversão que Jr 31 promete já está acontecendo na narrativa de Mateus.
Há ainda um detalhe geográfico que reforça a leitura. Roque, a esposa de Jacó, está sepultada perto de Belém (Gn 35:19), não em Ramá. A escolha de Jeremias de colocar Raquel em Ramá, cidade ao norte, foi ela mesma uma alusão poética. Mateus reconhece essa alusão e a aplica ao lugar real do sepultamento de Raquel: Belém, onde o massacre aconteceu.
O padrão que aparece em todo o evangelho
Isaías 7:14 e Jeremias 31:15 não são acidentes isolados. São dois exemplos de um padrão que percorre o Evangelho de Mateus de ponta a ponta. Mateus cita Oséias 11:1 em relação à volta do Egito (Mt 2:15): "Do Egito chamei o meu filho", texto que no Pshat fala do Êxodo de Israel, e que Mateus lê como tipologia do retorno de Jesus. A mesma estrutura de dois níveis, o mesmo método, a mesma lógica hermenêutica.
Um autor inventando profecias de forma arbitrária não produziria esse padrão consistente. Produziria citações aleatórias escolhidas por conveniência. O que Mateus exibe é uma hermenêutica coerente, enraizada numa tradição interpretativa específica, aplicada com precisão ao longo de todo o evangelho. É a hermenêutica de alguém que conhecia as Escrituras por dentro, não de alguém que as manipulava por fora.
O que a crítica precisaria provar
Para sustentar que Mateus distorceu o Antigo Testamento, a crítica precisaria demonstrar que o método Remez era considerado ilegítimo no judaísmo do primeiro século. Não foi. Precisaria demonstrar que a Septuaginta não usou parthenos em Isaías 7:14. Usou. Precisaria demonstrar que Jeremias 31 é apenas um texto de lamento sem promessa de restauração. Não é.
O que a crítica faz, na maior parte das vezes, é aplicar categorias modernas de exegese histórico-crítica a um texto que não foi escrito dentro dessas categorias. Mateus não estava escrevendo um comentário acadêmico do século XXI. Estava escrevendo dentro de uma tradição hermenêutica viva, para leitores que a reconheciam, usando métodos que seus contemporâneos judeus usavam todos os dias.
Chamar isso de distorção é não entender o texto que se pretende criticar.





