Este artigo é a Parte II de uma série de cinco sobre a autoria e credibilidade do Evangelho de Mateus. Na Parte I, examinamos o testemunho patrístico e as marcas internas de autoria. Aqui, investigamos a questão do idioma original.
A tradição mais antiga sobre o Evangelho de Mateus não fala apenas de quem o escreveu. Fala também em que língua. Papias de Hierápolis, o testemunho externo mais antigo que temos sobre qualquer evangelho, registra por volta de 110 d.C.:
"Mateus compilou os oráculos do Senhor em língua hebraica, e cada um os interpretou como podia." Papias, apud Eusébio, Historia Ecclesiastica III.39.16
A afirmação é simples e específica: o evangelho foi composto originalmente em hebraico. A tradição grega que chegou até nós seria uma tradução. A crítica moderna tende a descartar esse dado, argumentando que nenhum original hebraico sobreviveu e que o grego do evangelho não tem traços de tradução. O que esse argumento ignora é que há dois testemunhos independentes que confirmam a existência de uma tradição hebraica de Mateus, e que um deles vem de uma fonte que jamais teria qualquer interesse em fazê-lo.
Jerônimo: o mesmo dado em três obras distintas
Entre os Pais da Igreja, ninguém retorna ao tema com mais insistência do que Jerônimo. Em De Viris Illustribus, cap. 3, escrito por volta de 392 d.C., ele registra:
"Mateus, também chamado Levi, apóstolo e outrora publicano, compôs um evangelho de Cristo publicado primeiramente na Judeia em hebraico, em favor daqueles da circuncisão que haviam crido; mas este foi posteriormente traduzido para o grego, embora por qual autor seja incerto. O próprio texto hebraico foi preservado até o dia presente na biblioteca de Cesareia, que Pânfilo reuniu com tão grande diligência. Tive também a oportunidade de ter o volume descrito a mim pelos Nazarenos de Bereia, cidade da Síria, que dele fazem uso." Jerônimo, De Viris Illustribus, cap. 3 (~392 d.C.)
Jerônimo não está recitando tradição distante. Ele menciona uma localização física concreta: a biblioteca de Cesareia, reunida por Pânfilo mártir. E menciona uma comunidade viva que ainda usava o texto: os Nazarenos de Bereia, na Síria. Não é relato de ouvir dizer. É testemunho de quem buscou e localizou.
Mais de vinte anos depois, em Contra Pelagianos III.2, escrito por volta de 415 d.C., Jerônimo retorna ao mesmo dado em contexto completamente diferente, desta vez identificando o texto pelo nome e citando diretamente um trecho do seu conteúdo:
"No Evangelho segundo os Hebreus, escrito na língua caldaica e síria, mas em caracteres hebraicos, e usado pelos Nazarenos até o dia de hoje, refiro-me ao Evangelho dos Apóstolos, ou, como é geralmente sustentado, ao Evangelho segundo Mateus, cuja cópia se encontra na biblioteca de Cesareia..." Jerônimo, Contra Pelagianos III.2 (~415 d.C.)
A repetição do mesmo dado em contexto polêmico distinto, duas décadas depois, afasta qualquer hipótese de afirmação impensada. Jerônimo não estava construindo um argumento que dependesse dessa informação. Ele a oferece como dado estabelecido, pressuposto partilhado com seus leitores.
O Dialogus contra Pelagianos acrescenta o detalhe biográfico mais preciso:
"Tive oportunidade, da parte dos Nazarenos, de copiar este volume, que é usado em Bereia, cidade da Síria." Jerônimo, Dialogus contra Pelagianos
O que emerge das três obras é um testemunho estratificado: Jerônimo conhecia a tradição patrística, tinha notícia de uma cópia física preservada em Cesareia, e afirma contato direto com a comunidade que o utilizava. Três registros independentes, em três décadas, convergindo no mesmo dado.
O rabino que confirmou sem querer
O segundo testemunho é ainda mais revelador, porque vem de uma direção completamente oposta.
Por volta de 1380 d.C., um rabino judeu chamado Shem Tov ibn Shaprut incluiu o Evangelho de Mateus em hebraico em sua obra Even Bohan ("Pedra de Toque"), um tratado de polêmica explicitamente antijudaica. O objetivo de Shem Tov era refutar o cristianismo, não preservá-lo. O texto hebraico de Mateus estava lá para ser desmontado, não celebrado.
É exatamente por isso que o que esse texto revela tem peso tão incomum.
O linguista George Howard, em sua edição crítica Hebrew Gospel of Matthew (Mercer University Press, 2ª ed. 1995), documentou que o hebraico do Even Bohan apresenta uso sistemático do waw-consecutivum, construção morfológica característica do hebraico bíblico clássico. Não é o hebraico medieval tardio que Shem Tov dominava e usava naturalmente em suas próprias composições. Um tradutor medieval produzindo uma versão nova do evangelho a partir do latim ou do grego não teria razão para escrever em hebraico bíblico arcaico. E um falsário sofisticado o suficiente para forjá-lo deliberadamente não teria motivo para fazê-lo numa obra de refutação.
O texto arcaico estava lá porque já existia antes de Shem Tov.
As variantes textuais reforçam a conclusão. O texto de Shem Tov diverge em pontos significativos tanto do grego canônico quanto da Vulgata latina, o que exclui derivação direta de qualquer das duas tradições. Em Mateus 6:13, o texto hebraico omite a doxologia final do Pai Nosso, coincidindo com os manuscritos gregos mais antigos, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, contra a tradição litúrgica posterior que a incorporou. Em Mateus 27:46, o Shem Tov preserva a forma hebraica pura "Eli, Eli, lama azabtani", enquanto o grego transliterou o aramaico.
Essas convergências com a camada mais primitiva da tradição manuscrita grega, num texto transmitido em ambiente judaico medieval sem qualquer contato com a crítica textual cristã, não se explicam por acaso.
O que a crítica moderna objeta e o que responde
A objeção mais comum é esta: o grego do Evangelho de Mateus não tem os traços típicos de um texto traduzido. Um texto traduzido do hebraico para o grego tende a apresentar semitismos sintáticos, ordem de palavras incomum, expressões idiomáticas que não fluem naturalmente em grego.
A objeção tem peso. Mas pressupõe que o tradutor era mecânico, não literário. Jerônimo, ao traduzir a Bíblia para o latim, não produziu um texto que soa como tradução. Traduziu por sentido, não palavra por palavra. Um tradutor competente do primeiro século, trabalhando para uma audiência helenofônica, teria razões para produzir um grego fluido mesmo a partir de um original hebraico.
A objeção também ignora o dado complementar: o próprio Mateus, como publicano bilíngue em Cafarnaum, uma cidade de fronteira entre populações hebraicas e helenísticas, dominava os dois idiomas com proficiência profissional. A hipótese mais econômica não é que houve um único texto original e um único tradutor desconhecido. É que Mateus produziu as duas versões, ou supervisionou a tradução, ou que a comunidade hebraica e a grega receberam versões que evoluíram em paralelo desde o início.
A convergência que ninguém planejou
A cadeia patrística que afirma o original hebraico é extensa: Papias (~110 d.C.), Irineu (~180 d.C.), Orígenes (~244 d.C., apud Eusébio VI.25.3-4), Clemente de Alexandria e Eusébio. Todos afirmam, em regiões e séculos distintos, que Mateus compôs o evangelho em hebraico.
Mas o dado mais difícil de explicar por fabricação eclesiástica é o de Shem Tov. A Igreja medieval não tinha como infiltrar no Even Bohan de um rabino do século XIV um texto hebraico com características arcaicas e variantes independentes da Vulgata. O texto estava lá porque circulava em comunidades judaicas que não tinham nenhuma razão teológica para preservá-lo com fidelidade e toda razão para ignorá-lo ou distorcê-lo.
Isso é o que torna o testemunho de Shem Tov metodologicamente incomum: é o tipo de evidência que só tem valor precisamente porque vem de quem não queria dá-la.
Uma tradição hebraica de Mateus sobreviveu fora do controle editorial da Igreja, circulando entre pessoas que rejeitavam o que o texto ensinava. Ela deixou rastros textuais verificáveis: hebraico arcaico, variantes independentes, convergências com os manuscritos mais primitivos do grego. Esses rastros são consistentes com o que Papias, Eusébio e Jerônimo afirmaram desde o início: que antes do grego que chegou até nós, havia um texto hebraico, e que esse texto não desapareceu sem deixar marca.


